Amor dorido
Mentem os que dizem que já não gosto de ti. Não é verdade. Nunca deixei de gostar, nem poderia. O que tenho por ti, agora, é uma ternura magoada, ternura zangada, como uma filha que se zangou com a mãe e saiu de casa sem olhar para trás. É que tu já não és a mesma de outros tempos. Falta-te o brilho que te conheci, falta-te o Sol. Agora és só fria e só cinzenta. Os rostos fechados, metidos para si dos teus outros filhos. Não te perdoo teres-te vendido assim. Com medo do velho entregaste-te a uma novidade que só te trouxe desamores. Entregaste-te a promessas de um mundo novo. Querias uma vida nova e esqueceste-te da velha poesia, do velho teatro, da velha música que faziam de ti única. E, cega, não vês que quem te consome assim não merece essa beleza só tua. Queres parecer bem a quem te vê de fora e vendes o que não é teu, enfeitas-te com cores que não são tuas. Enquanto isso esqueceste-te de cuidar tudo o que tinhas de autêntico e agora, tudo o que os teus filhos amavam em ti são só ruínas de um passado doce. Eras para mim a mais bonita, a mais sorridente, a mais forte e insubmissa, a mais criativa e diferente e agora és só vulgar. Uma desilusão. Mas não deixei de gostar de ti. Foi das tuas entranhas que surgi, foste tu que me esculpiste, que me ensinaste o que sou. Foi no teu chão que aprendi que é em ti que uma árvore tem as raízes mais fundas e assim também um homem não pode arrancar as suas raízes de ti. O meu amor é agora desencanto mas, ainda assim, amor. Hei-de voltar sempre e procurar essa casa que ultimamente não tenho encontrado. E sei, porque sei!, que um dia vais voltar a ter essa luz que te roubaram, pela força das mãos daqueles homens e mulheres (os mais bonitos) que nunca se esqueceram do que já foste.
Para a minha terra, a minha casa, Évora.
Um pouco triste, mas ao mesmo tempo um belo poema narrativo.
Julgo que não houve nenhuma intenção poética na hora da escrita mas eu li como se fosse praticamente um poema.
Antes de terminar aproveito para desejar um Bom ano de 2010
Cratera de
Jorge |
18:29
Jorge, que bom que voltaste a comentar! Já tinha saudades de te ler por aqui. Bom ano para ti também*
Cratera de
J |
23:20
Joana eu até venho aqui com alguma frequência mesmo não comentando, sabes por vezes tenho preferência pelo silêncio do que escrever algo vazio de sentido.
Este aspecto não tem nada a ver com os teus comentários, que possuem todos o seu conteúdo e substância própria, é antes de mais uma auto disciplina pessoal...penso que por vezes escrevo muito e digo pouco em conteúdo=)
mas podes ficar descansada eu prometo vir aqui com regularidade, e por vezes comentar nem que seja um simples olá=)
Cratera de
Jorge |
11:41
De uma forma inteligente, e muito bonita, disseste o que tinha que ser dito. E, desta vez, de uma forma inatacável (sabes o que quero dizer). A isso chama-se maturidade. Parabéns.
Cratera de
P. |
12:47